A exportação de animais vivos pelo Porto de Natal acendeu um forte alerta entre especialistas e ambientalistas após o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) habilitar o terminal no Rio Grande do Norte para embarques marítimos de bois. Com a previsão de envio inaugural de mais de 3 mil bovinos rumo ao Líbano, a capital potiguar torna-se o primeiro porto do Nordeste a integrar essa controversa rota internacional. No entanto, os graves riscos da exportação de carga viva para o bem-estar animal, somados aos prejuízos à infraestrutura portuária, à mobilidade urbana e ao turismo local, mostram por que o Brasil como maior exportador de bois vivos precisa reavaliar o avanço dessa prática em seu litoral.
Histórico de desastres com embarcações
A frota global utilizada na exportação de animais vivos carrega um histórico alarmante de vulnerabilidade operacional. Estima-se que a probabilidade de um navio transportador de carga viva naufragar seja duas vezes maior do que a de outros navios mercantes. Esse alto risco decorre do fato de que cerca de 80% das 150 embarcações ativas no mundo não foram originalmente construídas para essa finalidade, apresentando uma idade média avançada de aproximadamente 40 anos.
Em Barcarena (PA) em 2015, o naufrágio do navio Haidar no Porto de Vila do Conde resultou na morte de quase 5 mil bois e no vazamento de 700 toneladas de óleo. Mais de dez anos depois, a carcaça permanece encalhada no berço de atracação, e o Governo Federal já gastou mais de R$ 12 milhões dos R$ 44 milhões licitados em tentativas frustradas de remoção. Anos mais tarde, em Santos (SP), no ano de 2018, o embarque de mais de 25 mil bois no Navio Nada gerou intensa poluição atmosférica e forte odor de dejetos pela cidade, levando o porto a descontinuar as operações. Mais recentemente, em São Sebastião (SP), em março de 2026, um incêndio a bordo do navio North Star 1, carregado com cerca de 2,6 mil animais, reacendeu os alertas sobre acidentes graves e emergências sanitárias no litoral paulista.
O sofrimento invisível nos navios de carga viva
A bordo dos navios, milhares de bois viajam confinados em baias superlotadas, forçados a viver em meio a fezes e urina por até quatro semanas. O ambiente abafado, as altas temperaturas e o balanço do mar geram estresse físico e psicológico intenso, deprimindo o sistema imunológico dos animais e aumentando drasticamente o risco de surtos de doenças infecciosas.
“Há dois fatos básicos sobre a exportação de animais vivos por via marítima que precisam ser compreendidos por nossos governantes. O primeiro é que essa atividade gera, desnecessariamente, sofrimento animal intenso. O segundo é que ela é um péssimo negócio para o país. Um pequeno grupo de empresas se apropria dos lucros elevados dessa atividade controversa e frouxamente regulada, transferindo para a sociedade e o Poder Público os riscos ambientais e sanitários.”
– George Sturaro, Diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da Mercy For Animals (MFA) no Brasil.
Impactos no turismo, mobilidade e economia local em Natal
A chegada dessa atividade ao Porto de Natal traz apreensão para os moradores e comerciantes locais, pois o porto está inserido em uma área histórica cercada por bairros residenciais e vias estreitas. O aumento substancial do tráfego de caminhões pesados gera sérios gargalos de mobilidade urbana, ruído, além de riscos sanitários decorrentes do manuseio e acúmulo de dejetos orgânicos. Por ser um dos principais destinos turísticos do país, a deterioração da qualidade do ar, os odores e os impactos na paisagem urbana podem afetar a imagem da capital potiguar. Além dos danos socioambientais, um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) demonstra que a substituição da exportação de animais vivos por carne processada poderia agregar entre R$ 1,46 bilhão e R$ 1,91 bilhão à economia brasileira, gerando até 7,2 mil empregos formais e arrecadando até R$ 610 milhões em impostos.
Como você pode ajudar
Pesquisas da Ipsos mostram que 84% dos brasileiros defendem a proibição da exportação de animais vivos no país. Não podemos permitir que nossas cidades e os animais paguem o preço dessa atividade. Assine nossa petição e participe das ações para banir a exportação de animais vivos e ajude a impulsionar um modelo econômico ético e sustentável!