”Nos EUA, 80% de todos os antibióticos vendidos são usados na indústria da carne. Amplamente disseminada, essa prática tem o duplo objetivo de promover nos animais um crescimento acelerado e prevenir doenças que fatalmente desenvolveriam, dadas as condições de superlotação, contaminação e estresse em que são mantidos.” Cowspiracy

Alertas e mais alertas vêm sendo dados já há anos por diversos pesquisadores quanto às graves e irreversíveis consequências da banalização do uso de antibióticos pela pecuária, culminando no surgimento do que vem sendo chamado de Era Pós-Antibiótico. Já imaginou como será quando a maioria dos antibióticos não fizerem mais efeito?

Quando pensamos em uso indiscriminado de antibiótico, naturalmente nos lembramos de que já fizemos e já vimos quem fizesse uso não tão necessário da amoxicilina e seus similares. Ocorre que o problema aqui tratado se dá em uma escala bem mais ampla que esse tipo de prescrição clínica corriqueira, qual seja: cerca de 80% do total de antibióticos vendidos em países como os EUA não são administrados em pessoas, mas sim em animais explorados pela pecuária, para que cresçam em ritmo mais acelerado e para que se evite a propagação de doenças a despeito dos ambientes aglomerados e contaminados em que são criados no sistema de produção intensiva.

O uso de antibióticos em animais, de forma geral, tem a capacidade de causar os mesmos problemas que seu uso em pessoas, dentre os quais o mais grave seria o surgimento de bactérias resistentes que podem passar de animais para humanos, ou vice-versa. A situação do Brasil, segundo estudos recentes, parece ser ainda mais grave, uma vez que, a exemplo da Rússia, Índia, China e África do Sul, está previsto em nosso país um aumento de 99% no consumo de antimicrobianos pela pecuária até 2030.

Esses dados têm por base estatísticas de vendas de antibióticos para uso veterinário aferidas em 32 países desenvolvidos e divulgadas no relatório “Global trends in antimicrobial use in food animals”, publicado em março de 2015 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), revista científica oficial da Academia Nacional de Ciências do EUA. O mesmo relatório prevê um aumento mundial de 67% no consumo de antibióticos pela indústria pecuária entre 2010 e 2030.

Um artigo publicado pelo New York Times em 2013 destaca os estudos realizados pelo microbiologista e epidemiologista Lance B. Price, da George Washington University, que, comparando sequências genéticas de bactérias E. coli resistentes a múltiplos antibióticos encontradas em amostras de carne, identificou uma cepa como sendo a maior causa de infecções do trato urinário, especialmente em mulheres e idosos – uma condição que acomete milhões e mata dezenas de milhares anualmente só nos nos Estados Unidos.

Lance Price também nota que a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) já em 1977 havia anunciado que começaria a proibir alguns dos usos agrícolas de antibióticos. Entretanto, a agência teria recuado após os comitês de dotações da Câmara e do Senado, “dominados” por interesses da agropecuária, terem aprovado resoluções contra a proibição. A mesma matéria cita que “o lobby agressivo dos interesses do agronegócio tem desempenhado um papel importante no que diz respeito a impedir a aprovação de leis”.

Embora tenha sido lançado recentemente nos EUA o Plano de Ação Nacional de Combate a Bactérias Antibioticorresistentes (National Action Plan for Combating Antibiotic-Resistant Bacteria), Lance destaca, em artigo publicado na Revista Eletrônica TCPam, que o plano não atingirá seu objetivo uma vez que não fixou metas para a total suspensão da utilização de antibióticos em animais confinados pela pecuária.

A forma como o homem vem colocando os interesses econômicos ou pessoais acima do bem-estar coletivo, incluindo-se aqui a saúde humana, dos animais e do planeta, já está encaminhando nossa própria existência a um estágio avançado de alerta. Em vez de investirmos em soluções mais simples, ecológicas e respeitosas tanto conosco como com os animais não-humanos, incentivando e facilitando a difusão de uma cultura alimentar saudável e vegana, agimos visando apenas ao curtíssimo prazo, deixando que interesses econômicos e antropocêntricos mesquinhos determinem as escolhas institucionais e governamentais e ditem o emprego imoral de fundos, tempo, talento e recursos, criação de tecnologias paliativas e assunção de riscos injustificáveis.

Uma estratégia mundial denominada conceito “One Health” (Saúde Única) visa a incentivar o enfrentamento coletivo e integrado de todos os aspectos dos cuidados com a saúde – humana, animal e ambiental. Os fundamentos para esse novo conceito parecem apontar finalmente para uma potencial equiparação do “homem” a seus semelhantes perante a natureza.