A origem dos alimentos e sua relação com sofrimento animal são fatores cada vez mais relevantes para consumidores e investidores. Questões como redução do sofrimento animal, transparência e responsabilidade socioambiental passaram a influenciar diretamente hábitos de consumo e decisões de negócio.
Na indústria de ovos, as galinhas são geralmente confinadas em pequenas gaiolas de metal com 3 a 10 aves, em um espaço que é equivalente a uma folha de papel A4 e em condições de higiene usualmente precárias. Elas não conseguem ciscar, esticar as asas ou se mover livremente. Muitas sofrem com ferimentos no corpo, pés dilacerados, prolapsos de órgãos, doenças respiratórias e sangramentos nas gengivas devido a prática de debicagem com lâminas quentes.
Por causar extremo sofrimento aos animais, o confinamento de galinhas em gaiolas em bateria já foi banido em diversos estados norte-americanos e em toda a União Europeia. No Brasil, a estimativa é de que 95% dos ovos ainda venham de sistemas assim.
Neste cenário, os resultados da pesquisa nacional realizada pela Ipsos para a Mercy For Animals oferecem um diagnóstico poderoso: o consumidor brasileiro está atento, exige mudanças e valoriza empresas que priorizam práticas mais responsáveis.
Dados reforçam oportunidade estratégica para varejo e setor alimentício
A pesquisa, realizada em março de 2025, mostra que 83% dos respondentes consideram o bem-estar animal um aspecto importante na hora das compras, e 76% disseram se preocupar com a forma que os animais são tratados na indústria de alimentos. Esses dados indicam uma valorização de marcas que também prezam por esses valores e se posicionam de forma transparente.
No tocante ao bem-estar das galinhas especificamente, 76% consideram o uso de gaiolas uma questão de crueldade animal. Quando apresentados às condições do sistema de gaiolas, 81% dos respondentes as consideraram inaceitáveis.
A pesquisa também abordou a opinião dos consumidores em relação à oferta de ovos por restaurantes e supermercados. 74% acham que tais setores deveriam parar de disponibilizar produtos que dependam de crueldade animal – mesmo que isso implique aumento nos preços. Essa preferência se confirmou quando 87% dos entrevistados afirmaram ter maior propensão em comprar de empresas que utilizam ovos livres de gaiolas.
A externalização do comprometimento corporativo com o fim das gaiolas também se mostrou importante para o consumidor. Para 83% dos entrevistados, as empresas devem se comprometer publicamente com a eliminação de gaiolas de sua cadeia produtiva e, para 81%, é papel das empresas incentivar os produtores a banir a prática de confinar galinhas.
Além de cobrar comprometimento público, os entrevistados também manifestaram desejo de informação e clareza por parte das empresas. 81% afirmam que os consumidores devem estar cientes da crueldade animal envolvida nos produtos vendidos nos supermercados, e 80% disseram que se sentiriam alvo de enganação caso uma empresa assumisse o compromisso público de não mais usar ovos de galinhas confinadas em gaiolas, mas não fosse transparente sobre o seu progresso.
De acordo com Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da Mercy For Animals no Brasil,
“a pesquisa confirmou que os consumidores prezam por uma produção ética e transparente. E, no tocante aos ovos, essa preocupação se torna ainda maior quando esses consumidores tomam ciência de como é a vida da maioria das galinhas: confinadas em gaiolas, sem a capacidade de sequer caminhar livremente ou abrir suas asas”.
Compromissos com bem-estar animal impulsionam reputação e preferência
Garbini, ainda, reforça:
“A pesquisa mostra que o mercado vai ser cada vez mais pressionado para que haja mudanças. 81% dos entrevistados afirmou acreditar que sistemas livres de gaiolas devem ser a norma da indústria no futuro. Ou seja: práticas mais éticas e que garantem uma vida de menos sofrimento aos animais se tornaram um item de valor agregado pelo qual os consumidores estão dispostos a pagar. Esse cenário convida as empresas a atenderem à crescente demanda por informação, transparência e por práticas que reduzam o sofrimento animal. As empresas que não acompanharem este movimento correm o risco de ficar para trás no mercado em transformação”.
Para a conclusão da pesquisa, foram feitas 1000 entrevistas por meio da plataforma Ipsos.Digital, com representatividade da população brasileira: abrangência nacional, pessoas entrevistadas acima de 18 anos e das classes ABC, em março deste ano. A margem de erro da pesquisa é de 3.1 p.p.