Mobilização organizada pela Mercy For Animals defendeu aprovação de lei no Congresso acabando com a atividade e também chamou atenção para embarque em andamento, no Pará, envolvendo o maior navio de transporte de animais vivos do mundo

Manifestantes foram às ruas na tarde deste domingo (6/3), em São Paulo, para pedir o fim da exportação de animais vivos por via marítima no Brasil. Organizado pela Mercy For Animals, o ato público e pacífico mobilizou cerca de 100 pessoas na Avenida Paulista e seguiu os protocolos e regras de prevenção contra a Covid-19.

Os participantes exibiram cartazes destacando a urgência de medidas serem tomadas para acabar com o sofrimento causado aos animais nessa atividade. Também pediram que a população assine uma petição para que o Congresso proíba a exportação de animais vivos destinados ao abate – o documento já conta com mais de 540 mil assinaturas.

(Foto: Tarek Mahamme – TK)

(Foto: Tarek Mahamme – TK)

A ação também chamou atenção para a chegada, no Brasil, do maior navio de transporte de animais vivos do mundo. O navio Mawashi Express, com capacidade para mais de 30 mil bois, começou o embarque no porto de Vila do Conde, em Barcarena (PA) – a previsão é que a operação seja concluída até a próxima terça-feira (8).

“É muito importante olharmos para as reais condições que tratamos os animais, não apenas os de companhia como cães e gatos. A manifestação foi uma forma de mostrar à população em geral como os animais são tratados e para que, juntos, possamos banir esta atividade”, afirma Cristina Mendonça, diretora executiva da MFA no Brasil.

Para Diogo Fernandes, gerente de Voluntariado da MFA no Brasil, “esse tipo de ato faz com que haja união de ONGs, ativistas e público em geral pelo apoio a não exportação de animais vivos”. Segundo Fernandes, manifestações como a de hoje aumentam as chances de a petição ter mais assinaturas e a pressão sobre o Congresso Nacional para colocar o projeto de lei em pauta.

(Foto: Tarek Mahamme – TK)

(Foto: Tarek Mahamme – TK)

Representação ao Ministério Público Federal

Na última semana de fevereiro, a Mercy For Animals, junto com as ONGs Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (Fórum Animal) e Princípio Animal, apresentou uma representação pedindo que o Ministério Público Federal (MPF) fiscalize no Pará o maior navio de transporte de animais vivos do mundo.

A solicitação é para que uma equipe técnica do MPF acompanhe o embarque, avalie as condições de transporte, o bem-estar dos animais e os riscos ambientais da operação, e que os responsáveis pela exportação apresentem planos de viagem e contingência.

Dentre os argumentos apresentados, estão o alto risco para o bem-estar dos animais, tendo em vista que serão submetidos a uma viagem longa em uma embarcação bastante antiga e que a operação ocorrerá em período de intenso calor. As ONGs também alertam para os riscos ambientais da operação, citando o caso do navio Haidar, que naufragou no porto de Vila do Conde em 2015 com 5 mil bois a bordo, provocando um dos maiores desastres ambientais do Pará.

Exportação de animais vivos no Brasil 

A cada ano, centenas de milhares de bois são transportados vivos pelo mar do Brasil até o Oriente Médio e o Norte da África, onde são mortos por sua carne. Ao longo dessa viagem, geralmente realizada em embarcações antigas e não projetadas originalmente para essa finalidade, os animais passam por imenso sofrimento físico e psicológico. 

Nos navios, eles são confinados em espaços minúsculos e obrigados a viver entre as próprias fezes e urina por semanas. Nos países de destino, são frequentemente manejados de forma brutal e abatidos enquanto ainda estão conscientes e são capazes de sentir dor. É uma atividade que compromete o bem-estar dos animais e acarreta sérios riscos ambientais.

Em 2019, o Brasil foi o segundo maior exportador de bovinos vivos por via marítima do mundo, ficando atrás apenas da Austrália. No mesmo ano, o país foi o que mais exportou para o Oriente Médio e o segundo que mais exportou para o Norte da África. Por ano, 11 milhões de bois são exportados vivos para abate – 18% deles são embarcados em portos da Oceania e da América do Sul e enfrentam longas jornadas por mar até o país importador.

No Brasil, o transporte marítimo de animais vivos começou em 2002 e, hoje, apenas três Estados concentram quase 95% das exportações. Os animais são predominantemente embarcados dos portos de Vila do Conde, no Pará (66,4%), Rio Grande, no Rio Grande do Sul (20%), e São Sebastião, em São Paulo (8,3%) – os dados se referem ao período 2012-2020 e constam no Relatório Investigativo Exportação de Animais Vivos no Brasil, lançado em 2021 pela Mercy For Animals.

Movimentos internacionais pela interrupção da exportação de animais vivos

O movimento pelo fim do transporte marítimo de animais vivos tem alcançado importantes vitórias ao redor do mundo. Há alguns anos a Austrália proibiu que animais de espécies mais sensíveis ao estresse térmico sejam exportados nos meses de verão. No ano passado, a Irlanda tomou a mesma decisão, baseando-se em uma diretiva de bem-estar animal da União Europeia que não recomenda o transporte de animais vivos sob temperaturas superiores a 30°C. 

O maior progresso veio da  Nova Zelândia, até então um grande exportador de animais vivos, que anunciou em abril de 2021 o fim da atividade com um prazo de transição. Meses depois, o Reino Unido lançou seu plano nacional de bem-estar animal, que contempla a proibição da exportação de animais vivos. Há duas semanas, Luxemburgo foi o primeiro país europeu a anunciar o fim da exportação de animais vivos. 

Em 2021, a MFA lançou a campanha Exportação Vergonha e detalhou a realidade do transporte marítimo de animais vivos no Relatório Investigativo Exportação de Animais Vivos no Brasil. Outra iniciativa, em parceria com a ativista Luisa Mell, foi uma petição para que o Congresso Nacional proíba a exportação de animais vivos destinados ao abate – o documento já conta com mais de 540 mil assinaturas.