Ranking dos Atrasados

Janaína Revito 10/09/2026

Para mais de 277 milhões de galinhas na indústria de ovos no Brasil, a realidade predominante ainda é a de confinamento intensivo – ou seja: elas passam a maior parte de sua vida confinadas em gaiolas. 

Segundo dados do IBGE, a produção de ovos de galinha em 2025 foi de 4,95 bilhões de dúzias, estimando-se que mais de 90% das aves criadas para postura de ovos vivem com espaço extremamente limitado para se movimentar, impossibilitando que sequer abram as asas e expressem outros comportamentos naturais.

Considerando que, de acordo com o Relatório Anual da ABPA 2026, o Brasil seguiu sendo o 5º maior produtor de ovos do mundo, essa realidade afeta milhões de animais diariamente na indústria.

A boa notícia é que as empresas que trabalham com ovos em suas cadeias de produção têm o poder de ajudar a mudar essa triste realidade. E muitas já se comprometeram publicamente em assim o fazer. 

A má notícia é que, apesar do compromisso assumido por essas empresas, algumas delas ainda estão atrasadas. Ou será que se esqueceram dele?

O que é o compromisso cage-free?

O compromisso cage-free (“livre de gaiolas”, em inglês) é uma iniciativa global que reconhece o sofrimento animal envolvido no uso de gaiolas para galinhas da indústria de ovos, e busca o fim dessa prática. Ao assumirem publicamente que não mais utilizarão ou comercializarão ovos de galinhas que foram criadas em confinamento intensivo, as empresas estipulam um prazo final para a transição, devendo reportar publicamente os progressos intermediários a título de maior transparência.  

Ao adotarem esse compromisso voluntário, as empresas fortalecem sua agenda ESG, demonstrando maior responsabilidade na gestão de suas cadeias de fornecimento e reduzindo riscos reputacionais. Além disso, também respondem à crescente demanda de consumidores, investidores e demais stakeholders por maior transparência e políticas empresariais mais éticas sobre o tema. 

Anunciar um compromisso é um ótimo primeiro passo. No entanto, acreditamos que compromisso sem execução não se reflete em benefícios para as galinhas. Como toda boa intenção, ele precisa sair do papel e chegar à prática!

Grandes empresas, pequenos avanços

Avanços em bem-estar animal dependem de três fatores essenciais: compromisso público, planejamento e ação. Embora muitas empresas já tenham se comprometido com melhores condições para as galinhas em suas cadeias de suprimentos, a implementação dessa mudança sistêmica caminha de forma desproporcional. 

Atualmente, quase 200 empresas que operam no Brasil têm compromisso cage-free. Estes compromissos corporativos foram estabelecidos há alguns anos, a fim de possibilitar que as empresas fizessem a transição de forma gradual e estratégica, até atingirem 100% de implementação. 

O ano de 2025 foi paradigmático para o movimento cage-free no Brasil, pois foi o prazo final estabelecido por 125 das empresas comprometidas no Brasil. No entanto, passado o prazo, o status do compromisso de grande parte dessas empresas ainda é incerto ou desconhecido.  

Para ser atingida, entendemos que uma meta precisa de prazo final e planejamento de etapas intermediárias de progresso em direção ao objetivo final. Essa é a fórmula para que uma boa intenção saia do papel. É por isso que o time de Relações Corporativas da Mercy For Animals acompanha a implementação dos compromissos públicos e, com base nos relatórios ou informações divulgados pelas empresas, identifica quem está avançando e quem aparentemente se perdeu no meio do caminho. 

As empresas selecionadas para esse Ranking têm em comum dois aspectos: 

1) atingiram o prazo final que haviam estabelecido para alcançarem a meta final de ter uma cadeia de suprimento de ovos 100% livres de gaiolas, porém

2) o status atual de avanço é desconhecido ou insuficiente. 

Seguem, abaixo, as três categorias que criamos para classificar as empresas contempladas no nosso Ranking dos Atrasados: 

Categoria Chá de Sumiço

Essa categoria destaca as empresas que firmaram o compromisso público de não mais trabalhar com ovos de galinhas confinadas em gaiolas, mas que ainda não divulgaram informações públicas sobre sua evolução e resultados ao longo do tempo (nem após vencido o prazo final de cumprimento).

  1. Grupo Panduratta (Bauducco)
  2. Cacau Show 
  3. Apetece 
  4. Apetit 
  5. LSG Group
  6. Choice Hotels
  7. Casa de Bolos 
  8. Rei do Mate 
  9. Grupo Zamp (Burger King, Popeyes, Starbucks e Subway)

Categoria Borracha

Essa categoria destaca as empresas que, com a proximidade do prazo final, apagaram o compromisso de seus canais oficiais e/ou adiaram os prazos inicialmente estabelecidos para sua conclusão sem explicar ao público o motivo dessas alterações. 

  1. Panco 
  2. Grupo Marilan (Casa Suíça) 
  3. J. Macêdo 
  4. Grupo Lemos Passos 
  5. De Nadai  
  6. Grupo Habib’s 
  7. BR Mania 
  8. Am Pm

Categoria Botão Soneca

Assim como o botão “soneca” adia o momento de se levantar da cama, algumas empresas, apesar de terem disposto de anos para completar a implementação do compromisso, adiaram os prazos inicialmente estabelecidos.

  1. Forno de Minas 
  2. Sapore
  3. Casa do Pão de Queijo

Categoria Creatina

Para as empresas que podem precisar aumentar a resistência e reduzir a fadiga para seguir em frente e cruzar a linha de chegada. Essa categoria destaca as empresas que firmaram o compromisso público por ovos livres de gaiolas e alcançaram progressos significativos, mas que, aparentemente, perderam o ritmo na etapa de implementação. 

  1. Sodexo
  2. Marriott
  3. Hilton
  4. Accor Hotels
  5. Suavipan
  6. Wickbold 

Promessas, por si só, não melhoram as condições das galinhas confinadas em gaiolas na indústria de ovos. As expectativas da sociedade, do mercado e dos investidores continuam avançando. Nesse cenário, acompanhar e comunicar de forma mais transparente o avanço desses compromissos se torna cada vez mais relevante. 

Para nós, o próximo passo é claro: comunicar os resultados com maior transparência e concluir a transição cage-free.

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