Para mais de 277 milhões de galinhas na indústria de ovos no Brasil, a realidade predominante ainda é a de confinamento intensivo – ou seja: elas passam a maior parte de sua vida confinadas em gaiolas.
Segundo dados do IBGE, a produção de ovos de galinha em 2025 foi de 4,95 bilhões de dúzias, estimando-se que mais de 90% das aves criadas para postura de ovos vivem com espaço extremamente limitado para se movimentar, impossibilitando que sequer abram as asas e expressem outros comportamentos naturais.
Considerando que, de acordo com o Relatório Anual da ABPA 2026, o Brasil seguiu sendo o 5º maior produtor de ovos do mundo, essa realidade afeta milhões de animais diariamente na indústria.
A boa notícia é que as empresas que trabalham com ovos em suas cadeias de produção têm o poder de ajudar a mudar essa triste realidade. E muitas já se comprometeram publicamente em assim o fazer.
A má notícia é que, apesar do compromisso assumido por essas empresas, algumas delas ainda estão atrasadas. Ou será que se esqueceram dele?
O que é o compromisso cage-free?
O compromisso cage-free (“livre de gaiolas”, em inglês) é uma iniciativa global que reconhece o sofrimento animal envolvido no uso de gaiolas para galinhas da indústria de ovos, e busca o fim dessa prática. Ao assumirem publicamente que não mais utilizarão ou comercializarão ovos de galinhas que foram criadas em confinamento intensivo, as empresas estipulam um prazo final para a transição, devendo reportar publicamente os progressos intermediários a título de maior transparência.
Ao adotarem esse compromisso voluntário, as empresas fortalecem sua agenda ESG, demonstrando maior responsabilidade na gestão de suas cadeias de fornecimento e reduzindo riscos reputacionais. Além disso, também respondem à crescente demanda de consumidores, investidores e demais stakeholders por maior transparência e políticas empresariais mais éticas sobre o tema.
Anunciar um compromisso é um ótimo primeiro passo. No entanto, acreditamos que compromisso sem execução não se reflete em benefícios para as galinhas. Como toda boa intenção, ele precisa sair do papel e chegar à prática!
Grandes empresas, pequenos avanços
Avanços em bem-estar animal dependem de três fatores essenciais: compromisso público, planejamento e ação. Embora muitas empresas já tenham se comprometido com melhores condições para as galinhas em suas cadeias de suprimentos, a implementação dessa mudança sistêmica caminha de forma desproporcional.
Atualmente, quase 200 empresas que operam no Brasil têm compromisso cage-free. Estes compromissos corporativos foram estabelecidos há alguns anos, a fim de possibilitar que as empresas fizessem a transição de forma gradual e estratégica, até atingirem 100% de implementação.
O ano de 2025 foi paradigmático para o movimento cage-free no Brasil, pois foi o prazo final estabelecido por 125 das empresas comprometidas no Brasil. No entanto, passado o prazo, o status do compromisso de grande parte dessas empresas ainda é incerto ou desconhecido.
Para ser atingida, entendemos que uma meta precisa de prazo final e planejamento de etapas intermediárias de progresso em direção ao objetivo final. Essa é a fórmula para que uma boa intenção saia do papel. É por isso que o time de Relações Corporativas da Mercy For Animals acompanha a implementação dos compromissos públicos e, com base nos relatórios ou informações divulgados pelas empresas, identifica quem está avançando e quem aparentemente se perdeu no meio do caminho.
As empresas selecionadas para esse Ranking têm em comum dois aspectos:
1) atingiram o prazo final que haviam estabelecido para alcançarem a meta final de ter uma cadeia de suprimento de ovos 100% livres de gaiolas, porém
2) o status atual de avanço é desconhecido ou insuficiente.
Seguem, abaixo, as três categorias que criamos para classificar as empresas contempladas no nosso Ranking dos Atrasados:
Categoria Chá de Sumiço
Essa categoria destaca as empresas que firmaram o compromisso público de não mais trabalhar com ovos de galinhas confinadas em gaiolas, mas que ainda não divulgaram informações públicas sobre sua evolução e resultados ao longo do tempo (nem após vencido o prazo final de cumprimento).
- Grupo Panduratta (Bauducco)
- Cacau Show
- Apetece
- Apetit
- LSG Group
- Choice Hotels
- Casa de Bolos
- Rei do Mate
- Grupo Zamp (Burger King, Popeyes, Starbucks e Subway)
Categoria Borracha
Essa categoria destaca as empresas que, com a proximidade do prazo final, apagaram o compromisso de seus canais oficiais e/ou adiaram os prazos inicialmente estabelecidos para sua conclusão sem explicar ao público o motivo dessas alterações.
- Panco
- Grupo Marilan (Casa Suíça)
- J. Macêdo
- Grupo Lemos Passos
- De Nadai
- Grupo Habib’s
- BR Mania
- Am Pm
Categoria Botão Soneca
Assim como o botão “soneca” adia o momento de se levantar da cama, algumas empresas, apesar de terem disposto de anos para completar a implementação do compromisso, adiaram os prazos inicialmente estabelecidos.
- Forno de Minas
- Sapore
- Casa do Pão de Queijo
Categoria Creatina
Para as empresas que podem precisar aumentar a resistência e reduzir a fadiga para seguir em frente e cruzar a linha de chegada. Essa categoria destaca as empresas que firmaram o compromisso público por ovos livres de gaiolas e alcançaram progressos significativos, mas que, aparentemente, perderam o ritmo na etapa de implementação.
- Sodexo
- Marriott
- Hilton
- Accor Hotels
- Suavipan
- Wickbold
Promessas, por si só, não melhoram as condições das galinhas confinadas em gaiolas na indústria de ovos. As expectativas da sociedade, do mercado e dos investidores continuam avançando. Nesse cenário, acompanhar e comunicar de forma mais transparente o avanço desses compromissos se torna cada vez mais relevante.
Para nós, o próximo passo é claro: comunicar os resultados com maior transparência e concluir a transição cage-free.