A carne limpa está pronta para uma edição limitada. O que vem por aí?

"Pedaços de frango livres de morte": é assim que a JUST, startup do Vale do Silício que lançou o Just Egg (um ovo vegano que promete sabor idêntico ao do ovo), apresenta seu novo produto. A partir desse lançamento, espera-se uma "disponibilidade ilimitada" de carne limpa (carne à base de células cultivadas, que não depende de qualquer exploração ou sofrimento animal) em restaurantes selecionados no mundo todo ainda este ano, informa a Bloomberg.

Imagem divulgação Just Egg

A carne limpa promete preencher uma lacuna para os comedores de carne, veganos e vegetarianos, aumentando, talvez, a conscientização sobre como os animais sofrem para que o filé de cada noite seja produzido, mas ainda pode ser um tema controverso para alguns veganos. Carne limpa contém carne real — mas apenas uma única célula de um animal vivo é necessária. Nenhum animal é morto na produção de um pedaço de carne limpa, e é por isso que essa opção às vezes recebe outros nomes, como carne livre de abatedouro, carne livre de crueldade, carne à base de células e carne de laboratório.

A tecnologia necessária para produzir carne limpa e para disponibilizá-la no mercado tem crescido lentamente. No início de abril de 2019, Bruce Friedrich, diretor-executivo do The Good Food Institute, disse que o primeiro hambúrguer de carne limpa comercialmente vendido custará cerca de 50 dólares. Esse é um grande avanço, comparado com o primeiro hambúrguer criado em um laboratório, que custou 325 mil dólares para ser produzido.

Os pedaços de frango da JUST não são diferentes. A produção será cara no início, mas à medida que a demanda crescer e que a empresa incluir seu produto em novos mercados, como o brasileiro, os pedaços de "frango limpo” terão preços mais baixos (torcemos por isso).

Friedrich disse que, na verdade, é mais provável que o frango chegue a restaurantes e supermercados antes que os hambúrgueres criados em laboratório. Estima-se que a indústria de carne limpa poderia representar 156 bilhões de quilos de carne até 2050.

Com a sua primeira venda comercial de carne limpa, a JUST quer cravar sua bandeira no mercado global de carnes — com previsão de produzir 544 milhões de toneladas de carne até 2050 — e eles não estão poupando esforços para fazer isso acontecer. A empresa está seriamente empenhada em fazer carne à base de células em vez de usar animais vivos e confinados. Os produtos da JUST emitem menos gases de efeito estufa, usam menos água, além de não confinar e não matar animais.

O segmento de carnes de origem vegetal e celular valerá US$ 10 bilhões quando chegar a 13% do mercado, uma fatia equivalente à ocupada pelo mercado de leites vegetais hoje.

De acordo com um novo relatório publicado pela Bloomberg em novembro de 2018, a "JUST Meat (carne)" espera fazer sua primeira venda comercial ainda em 2018, provavelmente fora dos EUA. Talvez até mesmo no Brasil.

Por que a JUST está começando pequena?

JUST está começando com um lançamento pequeno e limitado de seu novo produto de carne limpa, porque os EUA não estão prontos para essa inovação. Entenda por que:
1. os reguladores ainda não sabem como chamá-la;
2. a FDA e o USDA anunciaram responsabilidade regulatória conjunta da indústria com pouco ou nenhum apoio da indústria de carne bovina, presumivelmente o concorrente número um da carne limpa.

O Brasil e outros países ao redor do mundo não têm esse problema.

Pelo contrário, algumas grandes empresas de carnes estão surpreendentemente mais abertas à mudança de proteínas animais do que você imagina. A Tyson Foods foi uma das primeiras investidoras na Impossible Foods, uma empresa de carne baseada em vegetais. O mercado de carne baseado em células viu um interesse similar da concorrência, incluindo uma pequena parcela dos US$ 220 milhões de financiamento da JUST.

A Tyson e a Cargill investiram na carne à base de células por meio dos produtores de carne de laboratório do Vale do Silício Memphis Meats. A Tyson também destinou US$ 2,2 milhões em ações para a Future Meat Technologies, com sede em Israel.

Mais e mais consumidores querem experimentar a carne limpa

Imagem divulgação Sentient Media

Um estudo recente da Faunalytics disse que até 66% dos americanos que participaram da pesquisa ​​experimentariam carne cultivada (chamada “carne limpa” no estudo), comparado a 75% na Holanda. Mas a disputa sobre a convenção de nomenclatura apropriada é um grande problema que, apesar de ter sido amplamente divulgado recentemente, não avançou muito.

Os novos dados da Kadence International mostram que apenas 17% dos consumidores realmente sabem o que é carne limpa. Essa lacuna de informação (e a falta de um nome) está resultando em desacordo entre reguladores e fabricantes de carne limpa como a JUST.

Josh Tetrick, CEO da JUST, disse à FoodNavigator-USA que a empresa ainda está longe dos níveis de distribuição comerciais alcançados por produtos como o Beyond Burger, atualmente vendido em mais de 10.000 restaurantes nos Estados Unidos da América.

Tetrick disse que pode levar de 10 a 15 anos até que a carne limpa consiga uma fatia considerável do mercado mundial de carnes. E para a JUST Meat chegar a 500 restaurantes e locais de varejo, talvez 2 ou 3 anos.

O que está por vir para a indústria de carne sem abate?

A maioria das empresas que atua na área de carne limpa ainda está a 3 anos ou mais de lançar produtos no mercado. Mas o movimento para longe das proteínas animais é real. Segundo o Good Food Institute, 12% dos consumidores americanos compram produtos à base de vegetais. As vendas da Beyond Meat aumentaram 70% em 2017.

Com essa oportunidade, o esforço combinado das indústrias de carne à base de vegetais e à base de células poderia muito bem seguir o caminho da indústria de leites baseados em vegetais há 10 anos, que saltou para 13% do total de vendas de leite no varejo naquela época (nos EUA). Com 13% do mercado, o segmento de carne à base de vegetais e de células valeria 10 bilhões de dólares.

Se a JUST realmente pretende colaborar com os produtores de carne à base de vegetais, que já controlam 1% do mercado de carne, a carne limpa pode crescer em disparada. O melhor caminho é crescer em conjunto e, assim, mostrar aos concorrentes por que eles precisam parar de confinar animais e investir em um futuro livre de abates.

Uma versão deste artigo apareceu pela primeira vez no Sentient Media.